Atlântico negro na rota dos orixás
Antes
de tudo, faço aqui uma singela hermenêutica e gozando das prerrogativas
presentes no artigo 19 da Declaração Universal
dos Direitos Humanos:
“Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito
inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e
transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de
fronteiras”.
Em, segundo a
nossa Carta Magna, a Constituição
brasileira de 1988:
·
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada
pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
·
V – o Pluralismo Político.
·
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção
de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito
à vida, liberdade, igualdade, segurança e
a propriedade, nos termos seguintes:
·
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado
o anonimato;
·
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo
de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se
as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a
cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
·
IX - é livre a expressão da atividade intelectual,
artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença
·
Art. 220 A manifestação do pensamento, a criação, a
expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão
qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.
·
§ 2º - É vedada toda e qualquer censura de natureza
política, ideológica e artística.
O documentário ATLÂNTICO NEGRO – NA ROTA DOS ORIXÁS é uma produção
brasileira do ano de 1998, cuja duração é de 75 min. cuja direção é de Renato Barbieri.
A temática é interessante, pois busca apontar a miscigenação brasileira,
porém vale observar que o governo pouco se importa e menos ainda valoriza a
temática. Não me convence que cobrando esse assunto em processos seletivos,
como PAS ou ENEM fomentará o interesse pela cultura afrobrasileira.
Sem desmerecer o trabalho do Sr. Renato Barbieri, que à época de 1998, a
qualidade do material era até boa, mas agora em pleno 2017, esse material, sem
ser reeditado é totalmente obsoleto, porque a qualidade do material, sobretudo
o da sonoplastia é horrível.
Prosseguindo, avencemos com a observação técnica, pois
agora farei uma rápida exegese política,
haja vista que o ATLÂNTICO NEGRO – NA ROTA DOS
ORIXÁS coloca o dedo na ferida do Brasil, a escravidão. Pois bem, assistimos
passivamente, diante dos nossos olhos, os grandes empresários manipularem os
governantes - [porém, muitos empresários são os governantes e parlamentares]
– os quais assolam e assaltam a nossa sociedade e continuam a usurpar os nossos
direitos, a começar pela dignidade da pessoa humana, quando fazem com que o
Estado forneça serviços de baixa qualidade ou em condições mínimas, por isso
chamamos de Estado Mínimo.
Nos últimos dias e, precisamente, ontem vimos que
descaradamente os parlamentares legislam com pessoalidade [quando deveria
ser com impessoalidade, princípio da administração pública, conforme está escrito no artigo 37 caput, da
constituição Federal de 1988] elaborando leis que
coloca o cidadão novamente em situação de escravidão, pois as reformas
previdenciária, trabalhista (CLT), Educacional: Ensino Médio e LDB apontam que
o Estado pretende deixar os mais francos (os trabalhadores, sobretudo os
negros) em situação semelhante a da escravidão, na época de ouro do tráfico
escravocrata, basta observar a Lei da Terceirização, projeto
proposto há 19 anos pelo Governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e ressuscitado pelos deputados, já aprovado pelo
Senado.
Em tese, estamos num país
democrático, mas ao transformarem em leis projetos, como, por exemplo, o projeto
de 1998 (desatualizado em todos os aspectos), fere-se a tal democracia.
Renato Barbieri, em Atlântico Negro – Nas rotas dos orixás, revela que o tráfico de
escravos fomentava inúmeras corrupções e atos imorais até mesmo entre as tribos
africanas.
Conforme já citei e
reitero, a qualidade de imagem e sonoplastia é horrível. Mas, o trabalho visa
mostrar que a presença dos africanos na neocolonia (Brasil) cria-se um
problema: choque cultural entre a fé e costumes europeus, africanos e
indígenas. Os europeus “satantizam” a religiosidade e os ritos africanos. Hoje,
sociologicamente analisando, que não existe cultura melhor ou pior. Mas na
visão europeia a deles deveriam suplantar as demais, e através da força.
O tráfico negreiro
tornou-se um negócio muito lucrativo durante a colonização, por conta da grande
movimentação de navios no Oceano Atlântico, o documentário recebe o nome de
“Atlântico Negro”. Nota-se que muitas tribos africanas, no anseio de
assemelharem-se à cultura Renascentista e, até mesmo, Iluminista, guerreavam-se
entre si, no intuito de venderem aos brancos a tribo derrotada. Mas queriam
dinheiro ou objetos e utensílios da cultura branca para que? Nota-se que os
primeiros culpados foram os próprios guerreiros tribais que não se uniram para
se defenderem, mas ao contrário, desejavam a soberania nas terras pátrias, no
solo negro.
Notas-se no documentário
que além mostrar a cultura africana, visa atacar a Igreja Católica (força
política, econômica e espiritual no sec. XVI). Mãe Dentinha, sacerdotisa, em
Salvador – BA, acusa a Igreja Católica de as pessoas associarem Exu ao diabo,
pois segundo ela “essa coisa de diabo é coisa da Igreja Católica”.
Grande grave aí, do roteirista, que também é o diretor, foi esquecer de elencar
que não somente os católicos eram cristãos, mas também os protestantes
(evangélicos), os quais também, infelizmente, praticaram o terrível ato de
escravizar.
Mas o conflito não se dá
apenas entre católicos, protestantes e africanos, envolvem ainda os mulçumanos,
colocando num caldeirão uma vasta cultura, que resultou na cultura brasileira,
a qual passou a prestar reverência aos vóduns e orixás. Em Brasília-DF, por
exemplo, na orla do Lago Paranoá há uma prainha dedicada aos Orixás, mostrando
que há sim uma forte presença africana na capital federal.
Em Salvador-BA, na Missa
do Senhor do Bom Fim (Festa do Senhor do Bom Fim) é o evento que marca a mais
importante celebração dos Abudá em relação às suas raízes brasileiras.
Por fim, as relações
entre as pessoas geram conflitos e, com o passar do tempo tentam-se manter o
respeito, mas o que se nota é o pré-conceito. A Lei Áurea, por exemplo,
fracassa em apenas libertar os escravos, sem lhes dá amparo e uma perspectiva
de vida, o que acabou por marginalizá-los ainda mais, até os dias de hoje. Que
os Estado Brasileiro olhe por todos nós, que temos sangue europeu, africano e
indígena, sem nos massacrar com suas leis desumanas.
Devanilson Álvares
Professor de Filosofia e
Sociologia



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