Atlântico negro na rota dos orixás

03:42:00 Devanilson Álvares 0 Comments


Antes de tudo, faço aqui uma singela hermenêutica e gozando das prerrogativas presentes no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos:
Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.


Em, segundo a nossa Carta Magna, a Constituição brasileira de 1988:
·           Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
·           V – o Pluralismo Político.
·           Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, liberdade, igualdade, segurança e a propriedade, nos termos seguintes:
·           IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
·           VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
·           IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença
·           Art. 220 A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.
·           § 2º - É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

O documentário ATLÂNTICO NEGRO – NA ROTA DOS ORIXÁS é uma produção brasileira do ano de 1998, cuja duração é de 75 min. cuja direção é de Renato Barbieri.
A temática é interessante, pois busca apontar a miscigenação brasileira, porém vale observar que o governo pouco se importa e menos ainda valoriza a temática. Não me convence que cobrando esse assunto em processos seletivos, como PAS ou ENEM fomentará o interesse pela cultura afrobrasileira.
Sem desmerecer o trabalho do Sr. Renato Barbieri, que à época de 1998, a qualidade do material era até boa, mas agora em pleno 2017, esse material, sem ser reeditado é totalmente obsoleto, porque a qualidade do material, sobretudo o da sonoplastia é horrível.
Prosseguindo, avencemos com a observação técnica, pois agora farei uma rápida exegese política, haja vista que o ATLÂNTICO NEGRO – NA ROTA DOS ORIXÁS coloca o dedo na ferida do Brasil, a escravidão. Pois bem, assistimos passivamente, diante dos nossos olhos, os grandes empresários manipularem os governantes - [porém, muitos empresários são os governantes e parlamentares] – os quais assolam e assaltam a nossa sociedade e continuam a usurpar os nossos direitos, a começar pela dignidade da pessoa humana, quando fazem com que o Estado forneça serviços de baixa qualidade ou em condições mínimas, por isso chamamos de Estado Mínimo.

Nos últimos dias e, precisamente, ontem vimos que descaradamente os parlamentares legislam com pessoalidade [quando deveria ser com impessoalidade, princípio da administração pública, conforme está escrito no artigo 37 caput, da constituição Federal de 1988] elaborando leis que coloca o cidadão novamente em situação de escravidão, pois as reformas previdenciária, trabalhista (CLT), Educacional: Ensino Médio e LDB apontam que o Estado pretende deixar os mais francos (os trabalhadores, sobretudo os negros) em situação semelhante a da escravidão, na época de ouro do tráfico escravocrata, basta observar a Lei da Terceirização, projeto proposto há 19 anos pelo Governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e ressuscitado pelos deputados, já aprovado pelo Senado.

            Em tese, estamos num país democrático, mas ao transformarem em leis projetos, como, por exemplo, o projeto de 1998 (desatualizado em todos os aspectos), fere-se a tal democracia.

 Renato Barbieri, em Atlântico Negro – Nas rotas dos orixás, revela que o tráfico de escravos fomentava inúmeras corrupções e atos imorais até mesmo entre as tribos africanas.
Conforme já citei e reitero, a qualidade de imagem e sonoplastia é horrível. Mas, o trabalho visa mostrar que a presença dos africanos na neocolonia (Brasil) cria-se um problema: choque cultural entre a fé e costumes europeus, africanos e indígenas. Os europeus “satantizam” a religiosidade e os ritos africanos. Hoje, sociologicamente analisando, que não existe cultura melhor ou pior. Mas na visão europeia a deles deveriam suplantar as demais, e através da força.
O tráfico negreiro tornou-se um negócio muito lucrativo durante a colonização, por conta da grande movimentação de navios no Oceano Atlântico, o documentário recebe o nome de “Atlântico Negro”. Nota-se que muitas tribos africanas, no anseio de assemelharem-se à cultura Renascentista e, até mesmo, Iluminista, guerreavam-se entre si, no intuito de venderem aos brancos a tribo derrotada. Mas queriam dinheiro ou objetos e utensílios da cultura branca para que? Nota-se que os primeiros culpados foram os próprios guerreiros tribais que não se uniram para se defenderem, mas ao contrário, desejavam a soberania nas terras pátrias, no solo negro.
Notas-se no documentário que além mostrar a cultura africana, visa atacar a Igreja Católica (força política, econômica e espiritual no sec. XVI). Mãe Dentinha, sacerdotisa, em Salvador – BA, acusa a Igreja Católica de as pessoas associarem Exu ao diabo, pois segundo ela “essa coisa de diabo é coisa da Igreja Católica”. Grande grave aí, do roteirista, que também é o diretor, foi esquecer de elencar que não somente os católicos eram cristãos, mas também os protestantes (evangélicos), os quais também, infelizmente, praticaram o terrível ato de escravizar.
Mas o conflito não se dá apenas entre católicos, protestantes e africanos, envolvem ainda os mulçumanos, colocando num caldeirão uma vasta cultura, que resultou na cultura brasileira, a qual passou a prestar reverência aos vóduns e orixás. Em Brasília-DF, por exemplo, na orla do Lago Paranoá há uma prainha dedicada aos Orixás, mostrando que há sim uma forte presença africana na capital federal.
Em Salvador-BA, na Missa do Senhor do Bom Fim (Festa do Senhor do Bom Fim) é o evento que marca a mais importante celebração dos Abudá em relação às suas raízes brasileiras.
Por fim, as relações entre as pessoas geram conflitos e, com o passar do tempo tentam-se manter o respeito, mas o que se nota é o pré-conceito. A Lei Áurea, por exemplo, fracassa em apenas libertar os escravos, sem lhes dá amparo e uma perspectiva de vida, o que acabou por marginalizá-los ainda mais, até os dias de hoje. Que os Estado Brasileiro olhe por todos nós, que temos sangue europeu, africano e indígena, sem nos massacrar com suas leis desumanas.

Devanilson Álvares
Professor de Filosofia e Sociologia


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